sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Obras literárias UFSC 2013

A UFSC divulgou no início de fevereiro a lista dos livros que serão cobrados na prova de literatura de seu vestibular para ingresso em 2013. Na lista, repetiu-se um livro do ano anterior: “Memórias de um sargento de Milícias”, de Manoel Antônio de Almeida. Este é o único livro do Séc. XIX na lista e é um clássico romântico que já previa visões do realismo, lançando o anti-herói Leonardo. No ano que completamos 90 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo, dois modernistas de 22 estão na lista. As deliciosas lições de amor da Fräulein Elza de 35 anos e o adolescente Carlos de 16 anos, do livro “Amar, verbo intransitivo” de Mário de Andrade e o irreverente “Memórias Sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade. O romance Capitães de Areia do baiano Jorge Amado e o a peça de teatro “o beijo no asfalto” do polêmico escritor carioca Nelson Rodrigues são clássicos muito bem escolhidos para prova. Como de tradição, a UFSC sempre inclui autores catarinenses: Guido Wilmar Sassi, lageano, escreveu o livro “Geração no Deserto” que conta sobre a Guerra do Contestado entre Santa Catarina e Paraná e que virou filme em 1971 com o título: "A Guerra dos Pelados"; Silveira de Souza é contista do Grupo Sul, que instituiu o modernismo em Santa Catarina nos anos 40 e dele entra o livro “Ecos do Porão”. Completa a lista a coletânea de poesias de diversos autores, “Poesia Marginal” da série para gostar de ler.

1. Mário de Andrade
Amar, verbo intransitivo
Editora Agir
2. Nelson Rodrigues
Beijo no Asfalto
Nova Fronteira
3. Jorge Amado
Capitães de Areia
Companhia das Letras
4. Silveira de Souza
Ecos no Porão – volume 2
Editora da UFSC
5. Guido Wilmar Sassi
Geração do Deserto
Editora Movimento
6. Manoel Antônio de Almeida
Memórias de um sargento de Milícias
NUPILL/UFSC e diversas editoras
7. Oswald de Andrade
Memórias Sentimentais de João Miramar
Editora Globo
8. Diversos autores
Poesia Marginal
Editora Ática


sábado, 12 de março de 2011

Visconde de Taunay - Autor de Inocência

Alfredo D’Escragnolle Taunay (Rio, 1843-1899)



Descendente de família nobre de pintores que chegou ao Rio de Janeiro durante a estada de D. João VI na cidade, teve educação intensa em artes e posteriormente ingressou na carreira militar onde serviu como engenheiro na guerra do Paraguai. Seu primeiro romance foi A Mocidade de Trajano, publicado em 1871, sob o pseudônimo de Silvio Dinarte. Também em 1871 publicou A Retirada de Laguna, com impressões suas sobre um momento importante da Guerra do Paraguai. Seu principal livro foi Inocência (1872), romance que inaugura o Regionalismo no Romantismo Brasileiro, trazendo para a prosa a vida e o linguajar do interior do Brasil que conheceu em suas viagens militares. A partir de 1872, ingressou no Partido Conservador, elegendo-se deputado e senador pela província de Santa Catarina, a qual também presidiu. Sendo monarquista convicto, afastou-se da política com a proclamação da república.

Sendo, em sua formação e atividades, engenheiro, militar e pintor, retratou em sua obra um universo verossímil, com paisagens de detalhadas descrições, sendo até classificado por alguns críticos como um precursor do Realismo. Muito inteligente e racional, criou diálogos naturais com linguagem simples, frutos de sua observação dos costumes rudes dos sertanejos. Tendo uma ampla e variada obra, atuou também como jornalista, memorialista e biógrafo.
Cuba sim, em nome da verdade.


Cuba sim, em nome da verdade, foi o enredo monêmico (ou seria unânime) da escola de samba União da Ilha da Magia, campeã do carnaval 2011 em Florianópolis. O título da escola vem colocar uma pedra em cima de uma levantada discussão sobre o tema Cuba, escolhido pela escola como homenagem a um povo feliz, vencedor e de opções políticas diferentes da maioria de outras nações. Uma parte reacionária da sociedade e da imprensa catarinense, estado que raramente elegeu candidatos de partidos de esquerda, em diversas oportunidades, criticaram o enredo como polêmico. Observa-se que o enredo só passou a ser polêmico, pois a polêmica foi forçadamente levantada e o adjetivo passou a acompanhar o carnaval da UIM em noticiários e notas do jornalismo. Outra União da Ilha, a do Governador, da cidade do Rio de Janeiro, desfilou o enredo sobre Darwin na Sapucaí. Estranhamente, ninguém levantou o tema como polêmico, em um Estado de grande quantidade de evangélicos e crentes e onde um garotinho que fugiu da escola e virou governador tentou instituir o criacionismo nas escolas municipais, em detrimento ao darwinismo. Neste caso, simplesmente não se quis levantar a polêmica. Logo, o termo polêmico na escola da ilha do sul foi mais imposto pela má fé e ignorância de alguns do que pelo fato de realmente ser. Aliás, se a União da Ilha do Rio fosse julgada (não foi em função de um incêndio), qual seria a nota de Darwin no quesito evolução?

Da cogitação e polêmica prévias ao desfile há uma grande ponte sobre o rio de águas turbulentas. A procura por fantasias e a freqüência nos ensaios na praça da lagoa só aumentou, principalmente pela simpatia com o enredo. A escola aumentou consideravelmente as vendas de camisetas com a imagem de Che Guevara que, aliás, sempre esteve em alta. A escola aproximou mais e aumentou muito a simpatia com um povo alegre, forte e batalhador que possui muito mais semelhanças que diferenças com o brasileiro, abafando uma antipatia ou rivalidade vindas de uma época de combate a imagem comunista na ditadura militar e, posteriormente, de jogos memoráveis entre as seleções nacionais de voleibol, tanto nos mundiais como nas olimpíadas. Por que não mostrar os lados ruins da ditadura de Fidel em cuba? A resposta é simples: enredo de carnaval não é tese acadêmica de doutorado em história ou filosofia exigindo análises profundas, técnicas ou até verdadeiras. Carnaval é uma festa popular, de fantasias, de máscaras, onde o principal intuito é a diversão. O desfile de uma escola de samba é uma obra de arte montada como se produz uma ópera: com sua música, figurinos, cenário, personagens, cenas, fantasias, musas, histórias e, principalmente, sua platéia. A esta platéia é muito mais indicado a comédia que o drama. Acreditar que a escola, fazendo jus ao nome escola, deveria mostrar a verdade verdadeira é esperar que a Grande Rio, escola carioca que homenageou Florianópolis, entrasse na avenida com um carro alegórico que apresentasse a praça da alfândega com crianças fumando crack e cheirando cola ou até um carro alegórico com uma famosa árvore de natal de quatro milhões de reais com o Andrea Bocelli de destaque. Talvez o carnaval seja muito mais para se esquecer destes fatos do que lembrá-los.

O desfile em si foi unânime, quando a UIM entrou no sambódromo Nego Quirido, a possibilidade da recém criada escola de samba ganhar o título tornou-se evidente. A comissão de frente, nivelando-se com as melhores escolas do eixo Rio - São Paulo, arrancou aplausos de toda a arquibancada. Seu primeiro carro alegórico trouxe o execrável e aterrorizante Tio Sam, refletindo as influências e interferências norte-americanas em cuba; levou ao delírio uma nova leva de torcedores da arquibancada: aqueles que estudam história e filosofia na universidade federal, andam de camiseta vermelha e frequentam diretórios centrais de estudantes e centros acadêmicos. A bateria do mestre Dé e da rainha Catarina, vestida de “guerreiros unidos da revolução”, com suas boinas vermelhas (extremamente cobiçadas pelos turistas no fim do desfile), fez um desfile tecnicamente correto e militarmente excitante: batendo continência e reverenciando a assistência. Marcelo Perna, sempre de retórica eloqüente, cantou um samba simples e ingênuo, mas de fácil memorização com refrões que lembravam gritos de guerra. Passando pelo turismo, saúde, educação, a escola finaliza o desfile mostrando os velhos cabarés de Havana, como o cabaré Tropicana, onde a luso-brasileira Carmem Miranda se apresentou nos anos em que Cuba era o Balneário Camboriú dos americanos.

Certamente, a estrela que mais brilhou na passarela na noite de sábado para domingo deste carnaval não foi uma mulata gostosa com roupas pequenas e sambando muito, pelo contrário, foi a médica pediatra legista (será que existe profissão que exige mais sangue frio que esta?) Aleida Guevara, que desfilou no segundo carro alegórico representando a revolução cubana. Filha do ex-combatente Ernesto Che Guevara, Aleida foi convidada a desfilar pela diretoria da escola. Inicialmente custou a entender o que era um desfile de escola de samba e o que estava fazendo ali, entrando em uma avenida com arquibancadas lotadas aos lados, na frente de um canhão de brinquedo montado em cima de uma estrutura de metal toda decorada e com rodinhas. Seu carro alegórico vinha logo atrás da bateria e da ala das passistas, o que contagiou muito a visitante que saiu do desfile cantando o samba enredo da escola e com um lindo sorriso no rosto. Dizendo que estava ali representado todo o povo cubano e não só a figura do pai, respondeu também para uma emissora de televisão local: “Quando um povo se utiliza de sua festa mais popular para homenagear outro povo, isto deve ser um grande motivo de orgulho e alegria.” Aleida comentou também da felicidade das pessoas durante a festa; esteve na apuração dos votos e vibrou com a vitória da escola novata; participou emocionada do desfile das campeãs na noite de terça-feira. Imagine só o que esta mulher terá de histórias para contar para seus colegas de trabalho no Hospital de Havana, em seu retorna a Cuba.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os Livros do Vestibular da UFSC 2012

A Universidade Federal de Santa Catarina divulgou recentemente a lista das obras indicadas para seu Vestibular de 2012. A leitura dos livros é essencial uma vez que a prova do vestibular cobra questões com detalhes do enredo que só podem ser resolvidas com a leitura das obras. Convém também conhecer o contexto histórico, social, cultural e estético de cada obra, bem como o reconhecimento de aspectos próprios aos diferentes gêneros. Neste blog serão postados durante este ano vários artigos, resenhas e ensaios sobre as obras e seus autores. Acompanhe-os. Segue abaixo a lista das oito obras indicadas para o vestibular UFSC 2012.

1. Visconde de Taunay - Inocência

2. Manoel Antônio de Almeida - Memórias de um Sargento de Milícias

3. Dias Gomes - O Pagador de Promessas

4. Ana Miranda - AMRIK

5. Oswaldo França Júnior - Jorge, um brasileiro

6. Cecília Meireles - Viagem & Vaga Música

7. Milton Hatoun - A Cidade Ilhada

8. Adolfo Boss e Outros - Treze Cascaes

A redação no vestibular da UFSC

A prova de redação da UFSC têm sido cada vez mais original e criativa em seus temas e gêneros. A redação que era inicialmente uma dissertação passa a variar para cartas, narrações, contos, argumentações e crônicas, saindo de um padrão convencional e dando liberdade a linguagem. As receitas antigas de professores para dissertações com cinco parágrafos contendo apresentação, tese, antítese, conciliação e conclusão perdem valor e prioriza-se a capacidade de entendimento e adaptação ao tema, a coerência, a linguagem e argumentação do aluno. Esta e uma grande evolução e coloca a prova da UFSC na linha de frente das inovações e evoluções dos vestibulares. Como escrito no edital do vestibular de 2011, a redação deve ser resultado da produção e da criatividade do candidato.


A diversificação de gêneros literários e temas acaba contribuindo e fazendo parte do processo de seleção uma vez que se integra a itens relevantes à correção como adequação ao tema proposto e nível de informação. Segue abaixo informações do edital do vestibular de 2011 com relação a critérios de avaliação.



A avaliação da Redação será considerada nos planos do conteúdo e da expressão escrita, quanto à/ao:

a) adequação ao tema proposto;

b) modalidade escrita na variedade padrão;

c) vocabulário;

d) coerência e coesão;

e) nível de informação e de argumentação.



Sobre critérios de correção e avaliação é interessante conhecer a publicação sobre o conteúdo programático da disciplina redação e produção textual que está no site oficial da COPERVE-UFSC. Neste programa informa-se o critério de correção baseado em três vertentes: adequação; coerência e coesão; informação e argumentação. Entende-se por adequação o entendimento da proposta de texto da redação, a proximidade do texto do aluno com o tema, a adequação da modalidade escrita na variedade padrão, o respeito as normas gramaticais e ortográficas e o vocabulário. Na coerência e coesão analisam-se o encadeamento das ideias, organização do texto, relações semânticas e uso de conjunções e tempos verbais. As informações e argumentos escolhidos pelo aluno devem ser condizente com seu grau de escolaridade, escolhidas e organizadas de modo consistente para o entendimento do texto.

Do ponto de vista da contextualização, o próprio termo redação de vestibular, ou redação de concurso pode ser considerado um gênero textual, gênero este que possui um tamanho determinado (20 a 30 linhas na UFSC), um tempo e momento para ser escrito e destinado a um leitor (examinador) desconhecido. Dentro do gênero redação de concurso podemos encontrar diversos gêneros em relação ao estilo do texto proposto. Até o ano de 2002 a prova continha apenas uma proposta de redação que era necessariamente uma dissertação. A partir de 2003 a redação deixa de ser obrigatoriamente uma dissertação e passa a ser um texto em prosa, podendo abranger outros gêneros. Desde 2003 também passa-se a pedir mais de uma proposta, sendo duas propostas de 2003 a 2005 e três propostas de 2006 em diante. Nos anos de 2003 a 2005 o texto poderia ser uma dissertação ou outro texto com caráter argumentativo. De 2006 em diante as propostas passam a diversificar os gêneros pedindo cartas, narrações, notícia de jornal, crônicas e até contos. Observa-se uma abertura cada vez maior dos temas e dos gêneros com o objetivo de possibilitar mais liberdade para o aluno expor suas qualidades redacionais. A partir de 2006 também temos uma relação muito grande entre a prova de redação e os livros de leitura obrigatória da prova de literatura. No último vestibular, em 2010, este modelo se manteve, tendo-se três propostas: uma dissertação, uma narração e um conto ou crônica baseado em um poema de Mário Quintana, de um dos livros indicados para o vestibular.

Nas provas dissertativas e argumentativas destacam-se, em sua maioria, temas sociais e cotidianos como a colonização do Brasil (2000), a preservação da natureza (2001), o tratamento do homem como bicho (2002), a pedofilia ou o culto ao corpo (2003), a vaidade e a posição do homem na família (2005), a ética e a moral (2008) e até o fim do mundo (2010). Destacam-se dois temas fortes e polêmicos: o preconceito com exposição e discussão de temas como os gays e os negros (2004) e a sempre polêmica discussão sobre cotas raciais e sociais nas universidades (2005). Nas provas mais recentes com mais de uma proposta surgem temas mais leves e diversos: uma carta ao presidente da ONU sobre a paz (2006), um texto bem livre em primeira pessoa onde o aluno deve completar o pensamento: “Eu preciso de...” (2008), uma carta a um amigo sobre seus sentimentos, hoje, a respeito do país em que você nasceu e baseado no poema Uma Canção de Mário Quintana (2009) e até uma notícia de jornal sobre suspeita de bruxaria no desaparecimento de jovem na Lagoa da Conceição (2010). Uma inovação e particularidade recente da prova da UFSC é a correlação entre a redação e as obras literárias indicadas para o vestibular. Entre eles podemos citar: considerando a lista das obras literárias indicadas para este vestibular, qual ou quais dos livros desta relação você indicaria para leitura e qual ou quais você não aconselharia? (2006) Escreva um texto considerando situações envolvendo personagens das obras listadas para o Vestibular 2008 – que podem ser vistas à luz da ética e da moral. Escrever um texto que responda à pergunta: ainda existe no Brasil de hoje pessoas como o personagem Zé do Burro, da obra de Dias Gomes, O Pagador de Promessas? (2009)

A redação na prova do vestibular da UFSC para 2011 vai valer 15 pontos dos 105 possíveis, o que significa 14,2% do total da nota. Destes 15 pontos o aluno deve fazer pelo menos 30% da nota para não ser eliminado, ou seja 4,5 pontos. Como as médias das notas dadas pelos corretores são em torno de 50% da nota total e como o desvio padrão das notas de redação é muito baixo, acaba a redação não tendo muito peso na classificação final dos candidatos, sendo menos decisivas que as provas de matemática, física e química, por exemplo. Aconselha-se a banca a distribuir melhor as notas, dando notas mais altas as redações boas e notas mais baixas as mais fracas para que a redação pese mais na classificação. Era de se esperar muito que graduados em letras tenham conhecimentos básicos de matemática e estatística (mesmo sendo estas matérias obrigatórias do ensino médio - a média dos aprovados em língua portuguesa em 2008, por exemplo, foi 3,79 na prova de matemática). Serão eliminados, com nota zero de redação, os seguintes casos: fuga total do tema, redação resultante de plágio, redação escrita em versos ou identificação do candidato no espaço destinado à redação.

domingo, 24 de outubro de 2010

História de Roma e formação do latim


A data oficial da fundação de Roma é 753 a. C.. Sem registros precisos sabe-se que o Estado Romano teve origem entre os séculos VIII e IX a. C. e cresceu progressivamente até atingir dimensões grandiosas no primeiro século de nossa era. A história de Roma se divide em três grandes fases, marcadas por seus regimes políticos: a Realeza (até 509 a.C.), a República (509 a. C. até 27 a. C.) e o Império (27 d.C. até 476 d. C).

Existe na história de Roma uma certa democratização crescente do poder iniciado pelos patrícios, classe fechada que comandava a cidade nos primeiros tempos e um progressivo ganho de espaço pelos plebeus. A chegada do Império não representa, como se poderia pensar, um retorno á oligarquia, mas um resultado natural da desordem militar e da demagogia política no fim do período republicano.

A expansão territorial iniciou-se no período republicano e intensificou-se no império. A conquista da península itálica ocorreu no século IV a. C. , posteriormente conquistou-se a Magna Grécia em III a. C. e a Europa mediterrânea no século seguinte. No final da república conquistou-se a Gália e a península ibérica e no início do Império Romano a Ásia Menor, a Mesopotâmia, o norte da África e até a Bretanha.

A lenta decadência do Império Romano iniciou-se com Trajano no século II d. C. e ocorreu principalmente pelo não controle de seu grande território. Aos poucos os bárbaros que haviam sido conquistados foram se aculturando, principalmente belicamente, pois muitos participavam como legionário e até oficiais do exército romano e foram retomando seus espaços.

Conforme o Império conquistava seus territórios o Latim se impunha como língua franca, embora os romanos respeitavam as tradições religiosas e lingüísticas de seus conquistados. Desta maneira o Latim influenciava e era influenciado pelas outras línguas. Existiam basicamente duas formas do Latim: o Latim Clássico, utilizado principalmente em Roma e pelos administradores do império em documentos oficiais e o Latim Vulgar, utilizado pelos soldados e pelos comerciantes. O Latim Clássico convergiu para o Latim utilizado principalmente pela Igreja Católica a partir da Idade Média em seu documentos e cultos e resulta no Latim hoje estudado. O Latim Vulgar popularizou-se entre a maioria dos moradores da Europa e, sendo uma mistura de várias outras línguas faladas por povos conquistados pelos romanos produziu as chamadas línguas românicas, em sua maioria faladas até hoje como o Português, o Francês, o Italiano, o Espanhol e o Romeno.
A formação do cânon literário.




Inicialmente a linguagem é uma forma de relação não injetora entre o real e o simbólico no qual um termo ou uma expressão visa representar uma situação na qual a interpretação depende das bases culturais do receptor. Desta maneira a cultura ocidental entende que dominar a linguagem é uma forma de poder e de imposição social sobre os que a não dominam. Para entender o conceito de cânon é relevante esta observação pois a escolha de um cânon literário é uma forma de formalizar um conjunto de obras que ratificam, justificam e impõe o poder social e cultural. Um texto contém dentro dele toda a experiência de outros textos e toda a relação com os significados de uma cultura e um tempo.

Na Grécia “Kanon” representava uma vara de medição e derivou para as línguas latinas com o sentido de norma ou lei. A primeira visão de canonização (mesma palavra aliás para definir que são os santos na religião católica) vem dos princípios do cristianismo quando escolheu-se quais textos fariam parte e quais textos não fariam da Bíblia, isto demonstra uma imposição de autoridade e de poder da igreja procurando quais verdades lhe interessavam. Na visão artística literária, o cânon representa um conjunto de obras consideradas obras-primas com um valor fundamentas para o patrimônio da humanidade e que deve ser conhecida pelas gerações futuras. Estes clássicos seriam incontestáveis e referência para a cultura universal (ou ocidental), mas qual seriam os critérios para inclusão ou exclusão de um texto nesta lista?

Uma possível explicação pela inclusão do uma obra no cânone esta relacionada com a estética, estimando o valor do texto que contém uma beleza literária, sem considerar valores externos. Esta é uma noção é ideológica e elitista mostrando mais uma vez a relação de qualidade como a relação de poder. Esta idéia inicia-se no final do século XIII e início do XIX, com a idéia de que esta suprema beleza rivaliza com as mazelas do capitalismo. Posteriormente, as universidades realizam esta tarefa de estratificação cultural elegendo as grandes obras a serem estudadas. Esta visão contem uma transmissão cultural da obra que exclui algumas extratificações sociais que exclui algumas camadas da sociedade, não incluindo neste cânone mulheres, africanos ou indígenas e aproximando a qualidade do homem, branco e europeu ( ou do WASP norte americano). È recente a inclusão de algumas mulheres, alguns latinos e alguns negros como autores de qualidade, ou seja , o ato de ler é um ato também político.

A composição do cânone brasileiro se inicia com um forte nacionalismo dos românticos, nacionalismo este que procura os valores da terra mas não perde a influência do ideais europeus, principalmente franceses. No final do século XIX, onde a cultura era extremamente elitista, até porque poucos eram as pessoas que possuíam livros e sabiam ler, temos a influência de dois críticos relativamente opostos que são Silvio Romero, valorizando mais a visão social e José Verissimo, valorizando mais o estilo e a forma do texto. Este mesmo entrave segue no século posterior com duas vertentes distintas, onde Afrânio Coutinho, em Conceito de literatura brasileira analisa mais a estilística, no modelo do “new cristicism” norte-americano e Antônio Cândido, de formação sociológica, na Formação da literatura brasileira, valoriza a relação da obra com o social.

Pode-se concluir então que alem de subjetiva e pessoal, a formação de um cânone literário é também social e política, divergindo de crítico para crítico, com critérios de inclusão e exclusão muito variantes.
O que é Literatura?

Antes de qualquer discussão, literatura é arte. Mas o que é arte? A arte apresenta vários conceitos. O mais consagrado é o de Aristóteles: “Arte é mimese” (espelho da vida, imitação da natureza, imitação da realidade a fim de buscar a perfeição ou o belo). Provavelmente não conseguiremos chegar a uma definição exata, delimitando seus contornos com o não artístico, do que é arte e provavelmente do que é literatura. Da mesma maneira, se algum dia você se perguntar o que é música, vai se deparar com o mesmo dilema, mas certamente a literatura, o teatro, a música são subconjuntos de um conjunto mais chamado arte. Literatura como entendemos pode ser o conjunto de obras escritas, ou mais especificamente a composição de obras de arte em que a palavra é a matéria-prima. Logo a literatura é a arte de escrever. A linguagem literária pode ser diferente da usada na comunicação diária. É uma linguagem que se preocupa mais com o aspecto estético, usa muito a conotação e a função poética, palavras que ganhem novos significados, portanto pode requer muito trabalho estético do autor.
Para José Luis Jobim, em seu texto História da Literatura, O conceito do que é uma obra literária tem suas bifurcações. Pode-se pensar que qualquer texto escrito e, as vezes, até um expressão não verbal pode ser literatura. Pode-se pensar, como imaginavam os formalistas russos, que a obra literária possui uma propriedade comum às obras literárias chamada literariedade ou, como Roman Jakobson, como aquilo que faz uma mensagem verbal uma obra de arte. A própria definição exata dos períodos literários e dos estilos de época são perigosas ou, no mínimo, subjetivas, dependendo de quem, onde e principalmente quando esta definição está sendo feita. A organização e classificação das obras literária é muito mais subjetiva que a própria obra. Quando um autor escreve, vários leitores o interpretaram de diversas maneiras.
Terry Eagleton, em seu livro Teoria da Literatura: uma introdução afirma: “Se a teoria literária existe, parece óbvio que haja alguma coisa chamada literatura, sobre o qual se teoriza.” Porem, prosseguindo no texto, e fazendo possíveis definições do tema, encontra para cada uma delas problemas e falhas em suas enunciações. Uma possível distinção inicial entre o literário e o não literário poderia estar na discriminação entre o fato e a ficção. Porém, podemos encontrar textos medievais e novelas de cavalaria onde algumas são ficções e outras revelam tentativas de relatar episódios reais reais. Esta distinção pode acontecer até no livro mais publicado e polêmico de todos os tempos: O Evangelho, ou A Bíblia que para alguns, transformar água em vinho, ressuscitar e uma mãe ter um filho sem manter relações sexuais são fatos reais, para outros, pura ficção. (Ainda bem que Gabriel Garcia Marques não nasceu há dois mil anos em Jerusalém e se tornou apóstolo, a neurose místico-evangélica-cristã seria surreal). Assim como a distinção entre o fato real e a ficção imaginativa atormentam as bases da religião, ela também se confronta na ciência. Poucos escritores literariamente consagrados conseguiram ser tão criativos e imaginativos com Einstein em sua teoria da relatividade geral e restrita: velocidade da luz não depender de referencial, espaço contrair, tempo dilatar e massa se relacionar com energia são tão fantásticos que a própria comunidade científica da época não entendeu com realidade.
Sobre os formalistas russo do início do século XX, Terry Eagleton também comenta sobre as valorizações das formas do texto, de seu estilo. Críticos militantes, engajados e políticos, opõem-se ao misticismo simbolista da crítica literária até o momento, propondo um caráter científico à análise do texto. Procura-se a verificação das estruturas da linguagem aplicando os conceitos lingüísticos em oposição ao conteúdo da mensagem. A obra literária é constituída de artifícios, figuras de linguagem que englobam som, imagem, ritmo, rima, métrica, técnicas e narrativas que provocam uma surpresa e um estranhamento no leitor, diferenciando o texto literário do texto comum. Nos desenvolvimento das narrativas os formalistas valorizavam os desvios, como os entraves e retardamentos provocando uma violência lingüística com diferencias, com originalidade. Mais uma vez, a tentativa de definição de literatura encontra limites não definidos; uma frase, pela definição dos formalistas pode ou não ser reconhecida como literária dependendo da aplicação de seu contexto. Podemos encontrar frases simples em grandes obras literárias e até excelentes poemas que contem frases simples e coloquiais mas que formam idéias geniais e de grande valor. Para esta visão os poemas: Poema tirado de uma notícia de jornal ou Pneumotórax de Manuel Bandeira ou até mesmo o Erro de português de Oswald de Andrade não teriam valores formais e literariedade suficientes para serem considerados arte.
Pode-se então pensar que qualquer forma de expressão é literatura, mas aí esbarra-se em discussões como saber se um texto histórico, um texto filosófico, uma tese científica ou até uma bula de remédio contém caráter literário ou não. Mais uma vez encontramos possíveis interpretações dos valores. O valor é subjetivo. Assim como a palavra comida pode se referir a tudo com que uma pessoa pode se alimentar, cada um vai ter seu gosto pessoal por alimentos que mais o satisfazem. Na literatura também temos isto, a literatura contem um conjunto gigantesco de obras que não há alguém que possa ter acesso a todas para definir o que pertence ao seu cânone ou não. Assim também não há duas pessoas que leram exatamente as mesmas obras. A literatura pode ser um DNA da alma, assim como cada corpo físico tem o seu DNA único, aleatório e individual, a literatura de cada um é também pessoal e única, criando dificuldades na elaboração de uma única resposta para a seguinte pergunta: O que é Literatura?
Clássicos: Ler, Reler e Ter.

Existem alguns livros que têm um significado muito grande para povos de certa cultura, alguns livros que possuem um significado maior ainda para um indivíduo. Costumamos chamá-los de clássicos (sem necessariamente associá-los à época ou escola literária do classicismo). Esta palavra: clássico, que hoje em dia pode até ser usada para partida de futebol entre Flamengo e Fluminense no Maracanã, uma banda de rock dos anos setenta que perdura até hoje ou um filme antigo de grande bilheteria, tem na literatura um significado muito amplo e até discutível que no mínimo significa: de respeito.
O italiano Italo Calvino em sua obra: Por que ler os clássicos, começa brincado com a seguinte definição: Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo...” e nunca “Estou lendo...”. Esta afirmação de efeito específico para pessoas de mais idade que se consideram cultas, não tem obviamente muito efeito para os jovens, uma vez que estes costumam ter um contato compulsório com os clássicos no período escolar, podendo até criar um princípio de antipatia com a obra, principalmente por falta de bagagem para o entendimento do texto e de suas emoções. No que um garoto de dezesseis anos poderia se identificar com uma mulher formada adulta e adultera como Ema em Madame Bovary de Gustave Flaubert? Talvez seja mais fácil estes jovens se identificarem com alguns clássicos infanto-juvenis e então entenderem algumas da muitas intertextualidades de um filme com Shrek, um quase Dom Quixote atual da cinematografia infantil. Agora, da definição inicial de Italo Calvino, para os mais maduros e letrados o prefixo re em reler tem muito da vergonha de admitir que nunca leu uma obra considerada um clássico e de estar atrasado com sua formação cultural. O ego do conhecimento vezes ultrapassa o ego da beleza pessoal. Mas não há motivo para a preocupação, levante a mão quem já leu todos os romances de José de Alencar, de José Saramago ou de Jorge Amado? Ficou faltando algum conto de Machado de Assis ou de Guimarães Rosa para ser lido? Para seu deleite, sempre sobrará alguma obra importante para apreciação. Então Italo Calvino conclui: “Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.”.
Uma vez que a lista de clássicos pode se tornar interminável, vale a pena se ter o contato com alguns na juventude e outros em uma fase mais adulta. Privilegiados aqueles que têm fraqueza na memória e podem ler Dom Casmurro duas vezes quase com se fossem duas primeiras vezes: numa primeira, na adolescência, curtindo as brincadeiras infantis atrás do murro no quintal dos Páduas e o delicioso pentear de cabelos em Capitu por Bentinho, e, numa segunda vez mais maduro, recurtir a loucura do ciúme de Bentinho e das descrições de um texto fascinante de Machado de Assis. Assim como a releitura de um clássico e uma leitura de descobertas como da primeira vez. A primeira leitura, para quem tem relativa bagagem cultural, não é de toda crua, dado que muitas passagens dos clássicos estão embutidas nas convenções sociais. Dificilmente alguém vai ler Os Lusíadas sem saber que Vasco da Gama chega às índias ou ler Édipo Rei sem ter ouvido uma vez se falar de complexo de Édipo. Assim ainda Italo Calvino diz: “Os Clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precedem a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram.”.
Outro fator que os clássicos trazem em si é uma quantidade gigantesca de obras sobre o clássico. Livros que falam sobre livros e que interferem, de modo positivo ou até mais negativo, na posterior leitura. Estas obras atraem, até por força da necessidade de produção acadêmica para dissertações e teses, repetindo ou inventando barbúrias sobre o texto. A leitura virgem do texto contém um prazer de descoberta muito maior do que a orientada (ou desorientada). Não vamos retirar o prazer da perda do hímen literário daqueles que ainda o podem ter. Mário Quintana, autor de pensamentos como: “Uma definição apenas define os definidores.” ridiculariza esta academização dos textos sobre os textos com duas anedotas deliciosas:

“Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:
- Que devo ler para conhecer Shakespeare?
- Shakespeare.”

ou então:

“- Você ainda não leu O Significado do Significado? Não?Assim você nunca fica em dia.
- Mas eu estou só esperando que apareça O Significado do Significado do Significado.”

Estas idéias remetem a uma frase do amigo e poeta Julio Paulo Marcondes: “Quem sabe faz, quem não sabe ensina!”, sobre críticos das críticas ou ainda, do mesmo autor: “Escritores, cineastas e artistas em geral são críticos frustrados!”. Noel Rosa não fica atrás (nem na frente): “Samba não se aprende no colégio.” Assim Italo Calvino também diz: “Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe”.
Outro fator importante do clássico é a pessoalidade, a relação que este tem com o leitor e a interferência que nele causa. O cânone pessoal. Se pedires para várias pessoas para indicar os dez livros mais importantes para a humanidade, dificilmente ter-se-á uma intersecção completa. Assim como nos anos oitenta chegava-se a residência de uma pessoa e falava-se: “Posso ver sua coleção de discos (hoje vinis)”, a biblioteca de cada um é uma eleição de seus clássicos. Uma professora de literatura da UFSC constantemente comenta: “Esse é que nem bíblia de hotel, tem que ter na gaveta”. O mesmo Júlio Paulo Marcondes citado acima chega um dia feliz da vida e barda: “Conheci a Biblioteca do José Mindilim”. Então recebe como resposta: “Conheceu o José Mindilim ou sua biblioteca?” E sabiamente completa: “A melhor maneira de conhecer uma pessoa é conhecendo sua biblioteca, logo, os dois.” Será que ele já leu toda sua biblioteca? O sonho de todo grande homem é um dia poder ler toda sua biblioteca.
Mário Prata, um mineiro paulista virando mané.



Os Viúvos
Autor: Mario Prata
Formato: 16x23 cm
Brochura
Nº de páginas: 288
Preço: R$ 39,90

Mário Prata já é um dos maiores escritores brasileiros por sua qualidade e quantidade de trabalho em diversas áreas que a função permite praticar: jornalismo, romances, crônicas, resenhas, teatro e televisão. Algumas de suas obras mais populares são as telenovelas: Estúpido Cupido, novela clássica de 1976 sobre a época dos anos dourados no Brasil; Que rei sou eu?, uma das mais geniais criações da televisão brasileira fazendo uma metáfora medieval da política do Brasil da abertura e, de 2005, a recente e não consagrada pela audiência Bang Bang onde se percebe um distanciamento entre a criatividade do autor e a mediocridade dos telespectadores da última década. O Casamento de Romeu e Julieta, trazendo a velha história da rivalidade de famílias para uma disputa paulistana de corintianos e palmeirenses é uma de suas obras mais conhecidas para o cinema. Na literatura, destacam-se Schifaizfavoire, Purgatório e James Lins, um playboy que não deu certo. Esta última rotula bem o adjetivo paulista a Mario Prata, contando sua infância em Lins e episódios na capital paulista.
Os últimos dois livros do autor, Sete de Paus e Os Viúvos, são romances policiais escritos e passados em Floripa onde o autor optou morar desde 2000. Florianópolis é a capital institucional do Estado de Santa Catarina, que a maioria dos brasileiros conhece primeiro na escola, posteriormente visita em turismo e, depois, sonha morar um dia. Floripa é a cidade das pessoas comuns que nela vivem, trabalham, caminham nas suas ruas, praias, trilhas, logradouros e, ali, tem suas famílias e amigos do dia a dia. É nesta Floripa simples e simpática, que empresta o nome de várias de suas praias, bairros e ruas aos nomes dos capítulos, que se passa a história de Os Viúvos.
Há uma discussão ou masturbação mental, desnecessária e principalmente acadêmica, em definir o que é literatura catarinense; Cruz e Souza, nascido no desterro, viveu e produziu sua obra literária no Rio de Janeiro com poucas referências ou influências setentrionais e é tido como ícone da literatura catarinense. O que dizer de Mário Prata que nasceu e viveu a maior parte da vida em outros Estados, mas agora mora, escreve e descreve uma Floripa atual, real e fantástica com detalhes que são cada vez mais percebidos pelos leitores quanto maior seu contato, vivência ou conhecimento da Ilha da Magia? O detetive Ugo Fioravanti Neto já faz parte do cânone cultural de Floripa, e Mário Prata já pode se candidatar ao troféu Manezinho da Ilha e herdar o adjetivo catarinense a suas qualidades; talvez já esteja trocando o vermelho do Linense pelo azul do Avaí.
Com característica semiótica de transpassar pelos gêneros do teatro, cinema, televisão, jornal, entre outros, Mario Prata brinca muito bem com uma narrativa original e criativa, onde dois narradores dividem os capítulos, ora narrados pelo narrador oficial, o detetive Fioravanti, ora via email por E. R. N., seu opositor na divertida perseguição de gato e rato que decorre ao longo do livro que pode ser classificado como um romance policial, um almanaque de Floripa, uma denúncia e vingança pessoal às instituições monetárias e fiscais ou um roteiro de filme. O próprio Mário Prata o define como seu segundo policial de cinco que pretende escrever com o detetive Fioravanti como protagonista. Esta técnica de múltiplos narradores e originalidade na transmissão da história já havia sido muito bem utilizada em James Lins, um romance policial às avessas que já premedita esta tendência de mistura entre policial e humor, que torna o policial mais leve e o humor mais irônico e crítico. O livro já difere dos tradicionais policias, muito estudados e citados pelo autor na própria obra, pois nas primeiras linhas antecipa quem é o assassino e o assassinado, sem tirar a apreensão do leitor durante a leitura, modelo inspirado no livro Um assassino entre nós da inglesa Ruth Rendell. A descrição das personagens nas notas de rodapé são originais e deliciosas, tornando a compreensão do texto mais fluente. A dedicatória dispensa comentários: Para Digma, modelo.
A história tem dois paralelos: o sequestro e assassinato do contador por E.R.N. e a busca da proprietária de um lindo cu a pedido de um príncipe de Dubai. O príncipe chega ao escritório de Fioravanti, dizendo ter passado o último verão em Florianópolis e se apaixonado por uma garota de programa, a qual pretende se casar e levar para a Arábia; entrega duzentos mil dinares das Ilhas Bahrain e mais duzentos mil se o detetive e policial federal aposentado descobrir onde está a menina. Acontece que a única pista é uma fotografia, detalhe: do cu da moça. Esta foto em posse de seu fiel auxiliar Darwin Matarazzo causará muitos problemas ao seu casamento com a obesa Fabiana. Inclusive vale citar que Darwin, como em Sete de Paus, é o autor da orelha do livro, outro item não comum da obra: ter personagem como orelhista. Este resenhista, em respeito a Mario Prata e a sua obra, não pede desculpas pelo uso da palavra cu neste texto, até porque, no livro, o cu é uma das coisas mais limpas e leves da história. O capítulo da visita de Tinha, namorada de 21 anos de idade de Fioravanti, ao proctologista para análise da foto e consequentemente do cu da procurada, é surreal: divertidíssimo e interessantíssimo. A sujeira mesmo é institucional e está na outra trama do romance. Se o leitor se assustou com o uso da palavra cu, o livro não é para ti. O cu é limpo. O cu é lindo.
A outra aventura de Fioravanti inspira-se em uma experiência pessoal de Mario Prata com um contador estelionatário, com uma Receita Federal ilógica e com uma burocracia sistematizada ao extremo. A relação entre E.R.N. e Fiori se dá por email e pela literatura policial a qual ambos são admiradores. Fiori tenta também desvendar dois sequestros de duas bancárias que podem ou não ter relação com os emails de E.R.N., alem de administrar seu triângulo amoroso com sua antiga namorada e a filha desta e também reconciliar seu auxiliar Darvin que brigou com sua mulher por causa do já citado cu. O autor coloca seus desejos pessoais de vingança e nojo no sequestrador e assasino E.R.N. e critica com maestria e ironia instituições como o sistema bancário e o sistema de arrecadação de impostos nacionais. Muitos leitores, assim como Fiori, irão se identificar com o pensamento e as atitudes de E.R.N. e encontrarão um final também surpreedente.
Ganha a literatura brasileira com o livro, ganha o leitor, ganha a cidade de Florianópolis e perde a Receita Federal do Brasil, seu ministro, seus funcionários, juízes federais, contadores, oficiais de justiça, advogados, banqueiros e bancários que são execrados e humilhados por Mário Prata ao longo de livro e principalmente no prólogo onde declara a eles “Com máximo respeito e máxima gratidão, senhores, senhoras e senhoritas, quero que vos fodais!!!” A obra certamente durará mais que o parcelamento da dívida do autor com a receita federal .

MAzinho Sol, escritor, jornalista, crítico, compositor, músico, produtor artístico ou qualquer outra destas coisas que você pode se designar sem comprovação documental acadêmica.